A Reforma Tributária brasileira entrou em uma nova fase de atenção.
Depois de anos de discussões, aprovação da Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentação por leis complementares, o novo modelo de tributação sobre o consumo já possui um cronograma de implementação.
Mas, em meio ao cenário eleitoral de 2026, surgiu uma nova questão: o calendário da Reforma Tributária pode ser alterado?
A possibilidade de adiamento foi defendida por candidatos durante a campanha, especialmente por Flávio Bolsonaro, que propôs suspender por um ano a entrada em vigor do novo modelo para rediscutir suas regras. A proposta, entretanto, não poderia ser implementada simplesmente por decisão presidencial. Como parte do cronograma está estabelecida na Constituição, uma mudança desse tipo exigiria uma nova alteração constitucional e aprovação pelo Congresso.
Fonte: InfoMoney
Enquanto isso, o calendário oficial continua avançando. E é justamente aí que surge a principal preocupação para empresários: vale a pena esperar o cenário político se definir para começar a se preparar?
A resposta mais segura é não.
Reforma Tributária: por que as eleições entraram nessa discussão?
A Reforma Tributária do consumo foi aprovada em 2023 e estabeleceu uma mudança estrutural no sistema brasileiro de tributação.
O modelo atual, baseado em diferentes tributos federais, estaduais e municipais, será gradualmente substituído por um sistema baseado principalmente em:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços);
- IBS (Imposto sobre Bens e Serviços);
- Imposto Seletivo (IS).
A CBS será de competência federal, enquanto o IBS será administrado por estados e municípios. O Imposto Seletivo terá como objetivo desestimular o consumo de determinados bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente.
Fonte: Serviços e Informações do Brasil
O problema é que uma mudança dessa magnitude exige um longo período de adaptação. E é exatamente esse processo que passou a ser questionado durante as eleições de 2026.
A proposta de adiamento defendida por Flávio Bolsonaro prevê uma suspensão temporária da entrada em vigor do novo modelo para que suas regras sejam reavaliadas. Porém, especialistas destacam que uma mudança desse tipo exigiria uma PEC, ou seja, uma nova alteração na Constituição, além de negociação e aprovação no Congresso Nacional.
Fonte: InfoMoney
Portanto, é importante fazer uma distinção: discutir o adiamento da Reforma Tributária não significa que a Reforma foi adiada.
Até que uma mudança seja efetivamente aprovada, o cronograma existente continua sendo a referência para empresas, contadores e desenvolvedores de sistemas.
O que pode acontecer depois das eleições?
Existem, de maneira geral, três possibilidades que as empresas precisam acompanhar.
1. Manutenção do cronograma atual
É o cenário em que a Reforma segue conforme o planejamento estabelecido. Nesse caso, as empresas continuam avançando na adaptação para as novas regras e para as obrigações fiscais que começam a ganhar importância a partir de 2026 e, principalmente, 2027.
Esse é o cenário que deve ser considerado como base de planejamento enquanto não houver mudança legislativa.
2. Ajustes pontuais
Outro cenário possível é a manutenção da Reforma, mas com mudanças em determinados pontos. Isso pode envolver:
- regulamentações;
- alíquotas;
- exceções;
- tratamento de determinados setores;
- regras operacionais;
- obrigações acessórias;
- procedimentos de emissão de documentos fiscais.
Esse cenário, inclusive, é importante porque a Reforma ainda está em processo de regulamentação e implementação.
3. Tentativa de adiamento
Existe também a possibilidade de um novo governo tentar alterar o cronograma. Mas isso não significa que a implementação possa simplesmente ser "pausada" por decreto ou decisão administrativa. Uma alteração estrutural no cronograma constitucional dependeria do Congresso.
E esse ponto é fundamental para o empresário: uma possibilidade política não pode ser tratada como uma mudança efetiva na legislação.
Afinal, a Reforma Tributária começa em 2027?
Sim, o cronograma atual prevê mudanças importantes a partir de 2027. A transição, porém, não acontece de uma vez. O modelo foi desenhado para ocorrer gradualmente. De forma simplificada:
| Período | O que acontece |
| 2026 | Ano de testes e adaptação |
| 2027 | Entrada efetiva da CBS e início do Imposto Seletivo |
| 2029 a 2032 | Transição gradual de ICMS e ISS para o IBS |
| 2033 | Previsão de conclusão da transição |
O cronograma oficial prevê uma transição mais rápida para a CBS e gradual para o IBS. A substituição completa de ICMS e ISS pelo IBS está prevista para ocorrer progressivamente até 2033.
Fonte: Serviços e Informações do Brasil
Isso significa que 2027 não representa o fim do sistema tributário atual, mas marca uma etapa extremamente importante da transição.
2026 não é um ano para esperar: é um ano de preparação
Um dos maiores erros que uma empresa pode cometer é interpretar 2026 como um período em que "nada muda". Na prática, as empresas já estão entrando em uma fase de adaptação.
A Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS já divulgaram um cronograma para implementação dos documentos fiscais eletrônicos relacionados à Reforma Tributária. O calendário estabelece diferentes etapas para adequação dos documentos e sistemas às novas informações de CBS e IBS.
Fonte: Serviços e Informações do Brasil
Além disso, desde 1º de outubro de 2026, a maioria dos prestadores de serviços sujeitos ao ISS passou a ter que incluir informações relacionadas a IBS e CBS na NFS-e, embora a cobrança efetiva desses tributos ainda não ocorra nesse momento.
Fonte: Folha de S.Paulo
Ou seja: a adaptação já começou antes da cobrança plena. Isso é particularmente importante para empresas que utilizam sistemas de gestão, emissão fiscal, PDV e outros softwares responsáveis pela operação fiscal.
O que são IBS e CBS?
Para entender o impacto da Reforma, primeiro é preciso compreender os dois principais novos tributos.
CBS
A Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) é um tributo federal. Ela substituirá gradualmente tributos como:
- PIS;
- Cofins.
Sua implementação está prevista para ganhar força a partir de 2027.
IBS
O Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) será de competência compartilhada entre estados e municípios. Ele substituirá gradualmente:
- ICMS;
- ISS.
Sua transição será mais longa, avançando até 2033.
Imposto Seletivo
Também haverá o Imposto Seletivo, criado para incidir sobre determinados bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. A previsão é de entrada em vigor a partir de 2027.
Fonte: Serviços e Informações do Brasil
E as alíquotas? Por que ainda existe tanta discussão?
Esse é um dos pontos que aumentam a incerteza para as empresas. A definição das alíquotas de referência ainda faz parte do processo de implementação.
No caso da CBS, o TCU tem até 30 de outubro de 2026 para encaminhar ao Senado os cálculos da alíquota de referência para 2027. Depois disso, o Senado deverá definir o percentual até 15 de dezembro de 2026.
Fonte: Reforma Tributária (portal oficial)
Isso cria uma situação bastante particular para o empresário. A empresa precisa:
planejar → adaptar → testar → parametrizar → treinar
ao mesmo tempo em que algumas definições importantes ainda estão sendo concluídas. Por isso, a Reforma Tributária não deve ser tratada como um evento único. Ela é um processo de adaptação contínua.
O que muda para o empresário na prática?
É aqui que a discussão deixa de ser exclusivamente tributária e passa a ser também uma questão de gestão. Uma mudança no modelo de tributação pode afetar diferentes áreas da empresa.
Formação de preços
Alterações na forma de cálculo dos tributos podem exigir revisão da formação de preços. Não significa simplesmente "aumentar ou diminuir o preço". É necessário entender:
- carga tributária;
- créditos;
- margem;
- custo;
- cadeia de fornecedores;
- perfil dos clientes;
- impacto na operação.
Cadastro de produtos e serviços
Os sistemas precisarão trabalhar com novas regras e informações fiscais. Um cadastro incorreto pode gerar problemas na emissão dos documentos fiscais e na apuração.
Emissão de documentos fiscais
Esse talvez seja um dos pontos mais diretamente relacionados aos sistemas de gestão. Os documentos fiscais precisarão acompanhar os novos layouts, campos e regras estabelecidos pelos órgãos responsáveis.
A própria Receita Federal mantém um cronograma específico para orientar contribuintes e desenvolvedores sobre a implementação dessas mudanças.
Fonte: Serviços e Informações do Brasil
Gestão financeira
A alteração dos tributos também pode impactar:
- fluxo de caixa;
- margem;
- custos;
- recebimentos;
- planejamento financeiro;
- projeções.
Decisões tributárias
Empresas também precisam avaliar o impacto do novo modelo sobre seu regime tributário. No caso do Simples Nacional, por exemplo, novas regras foram estabelecidas para adequar o regime à Reforma Tributária e incorporar IBS e CBS.
Fonte: Serviços e Informações do Brasil

